Moody rooftop panorama of Lisbon
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Viver com saudade — O que Portugal ensina sobre a nossa palavra intraduzível

PHOTO: TRAVELERS ROUTE

A saudade — a palavra mais nossa, que herdamos de Portugal — percorre o fado, a era dos Descobrimentos e cada pôr do sol sobre o Tejo. Um ensaio sobre como levá-la para casa.

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15 min de leitura

Viaje por Portugal e algo fica com você, além do prazer dos lugares que vê: um resíduo que se recusa a ser explicado. O nome disso você já conhece de cor — saudade. Para nós, brasileiros, talvez seja a palavra mais íntima que existe: a gente diz “que saudade” o tempo todo, sem pensar. Mas é em Portugal, no país que deu ao Brasil a sua língua, que dá para tocar a nascente desse sentimento: uma ternura pungente pelo que se perdeu, pelas pessoas que ficaram longe, pelo tempo que não volta; nem bem nostalgia, nem bem desejo. Essa palavra que herdamos percorre as melodias do fado, a história da era dos Descobrimentos, o crepúsculo sobre o Tejo. Este texto não é um roteiro nem um guia de reservas. É uma breve pausa, escrita sobre a sensibilidade que Portugal ensina: como conviver com a lembrança.

O que é a saudade

Ponte 25 de Abril e veleiro ao entardecer, Lisboa
O Tejo ao anoitecer: o sol se pondo além da ponte — FOTO: TRAVELERS ROUTE (maio de 2024)

Em outras línguas, a saudade costuma virar “anseio” ou “nostalgia”, e toda tradução fica um pouco curta — é justamente por não caber em outro idioma que ela é tão nossa. É o luto pelo que se perdeu e a doçura de mantê-lo por perto, num mesmo fôlego: parecida com o que você sente ao lembrar de alguém que não vai rever, dolorosa e ao mesmo tempo inegociável. Os portugueses carregam essa palavra não como um lamento, mas como a força para continuar guardando o que guardam — e nós, brasileiros, sabemos disso na pele. Belo exatamente porque já não está: essa é a forma de olhar.

Por que esse sentimento criou raiz em Portugal

Por trás da saudade está a própria história de Portugal. Na era dos Descobrimentos, os homens se lançavam ao oceano em travessias que duravam anos, e muitos não voltavam jamais. Foi numa dessas viagens que Cabral chegou ao Brasil, em 1500 — as mesmas águas, a mesma espera. A espera das famílias que ficavam nos portos — a dor de se agarrar a quem não regressaria — decantou-se, dizem, numa emoção nacional. É deste chão que o fado canta o mar, a despedida e o anseio. E o orgulho calado e o senso de perda que seguem uma era dourada já ida: também isso está escrito no rosto deste país.

Percorra os cenários da era dos Descobrimentos e você toca a fonte do sentimento (veja Caminhar pela era dos Descobrimentos). Depois, numa noite em Alfama, escute um único fado e a palavra deixa de ser um conceito para virar algo que o seu corpo entende.

Depois da viagem, uma vida: o que você leva para casa

Vivendo dentro de uma cultura que premia a eficiência e o avanço, aprendemos a tratar a perda e a passagem do tempo como coisas a evitar. Portugal ensina o contrário: há uma riqueza em apreciar o que se perdeu e em sentir saudade do tempo que passou.

  • Chorar o que passa não é fraqueza: é a prova de que houve algo digno de se querer
  • A estética de manter em uso as coisas velhas, sem descartá-las: os bondes que rangem, os azulejos desbotados, as lojas abertas há séculos
  • Saborear a fundo antes de sair correndo: o luxo do tempo dedicado a uma só bica (café curto) num café antigo

Muito depois de voltar para casa, quando a palavra saudade aflorar num entardecer qualquer, ela muda, ainda que só um pouco, a maneira como você se encontra com as coisas passageiras da vida cotidiana. Uma viagem que se traduz em como você valoriza a vida: essa, talvez, seja a verdadeira lembrança de Portugal, a que nenhuma lista de pontos turísticos leva embora.

Como viajar para que a saudade te encontre

Rua de Lisboa na hora azul
Uma esquina na hora azul: as luzes das casas se acendendo uma a uma — FOTO: TRAVELERS ROUTE (maio de 2024)
  • Escute fado em Alfama à noite: numa casa de fado pequena, não num grande salão para turistas
  • Contemple o crepúsculo sobre o Tejo ou o Douro: sem nada na agenda depois
  • Dedique tempo de verdade a um café antigo: uma xícara no tipo de lugar que o poeta Pessoa frequentava
  • Ouça Amália Rodrigues antes de sair de casa: para que as melodias já cheguem familiares — e talvez você perceba o quanto do nosso próprio cancioneiro, do choro à bossa, também é feito de saudade

Onde a saudade se levanta — transformar um sentimento em experiência

A saudade costuma ser explicada como conceito, mas neste país ela levanta-se ligada a lugares e horas concretas. Aqui vão num formato que cabe num roteiro.

  • Uma noite de fado: o fado de Lisboa canta o que se perdeu. Mesmo sem perceber a letra, chega pela forma como o fadista aperta a voz e pelo silêncio que se faz na sala: essa hora é o caminho mais curto para sentir a saudade (uma noite a ouvir fado)
  • A margem de Belém: o ponto de partida da era dos Descobrimentos é também o lugar de quem esperou por quem não voltou. O padrão dos Descobrimentos e a torre de Belém olham para onde os barcos saíam, e essa direção do olhar é a própria estrutura da saudade (percorrer a era dos Descobrimentos)
  • Um miradouro ao entardecer: Lisboa é uma cidade de colinas e na hora antes do pôr do sol fica dourada por inteiro. Não ir ver alguma coisa, mas sentar-se e esperar que a luz mude: neste país isso conta como visita
  • O quotidiano a meio da ladeira: a roupa estendida, as conversas no beco, um elétrico que passa. As paisagens que não são atração estão mais perto deste sentimento: por isso faz sentido não correr entre sítios e deixar troços para andar a pé

Ou seja: a saudade não se sente por querer senti-la; entra sozinha no tempo que não se encheu. Deixar espaços em branco no roteiro é, neste país, a preparação mais luxuosa que há.

Como levar para casa aquilo que não tem palavras?

A saudade é um sentimento que não vira lembrança de viagem. Ainda assim há maneiras de a levar consigo: foi o que percebi depois de várias viagens por este país.

  • Leve-o como som: uma gravação de fado devolve o ar daquela noite mais depressa do que tudo. Aponte só um título dos que tocaram na casa e terá um aparelho de reprodução para o regresso
  • Leve-o como sabor: o vinho do Porto é um vinho fortificado, por isso aguenta bastante depois de aberto. Compre-o no fim da viagem e beba-o aos poucos em casa: descer devagar combina com este sentimento (o guia completo do vinho do Porto)
  • Leve-o como toque: os azulejos não são decoração, estão embutidos na cidade como material de construção, por isso um único azulejo liga-se à memória da cidade inteira (o guia completo do azulejo)
  • Fotografe as horas sem gente: mais do que o registo dos monumentos, um beco vazio de manhã ou a luz antes do pôr do sol chega mais perto deste sentimento quando se revê depois
  • Leve-a como palavra: saudade não tem tradução exata. Guardá-la por traduzir é o mais próximo de tratar bem este sentimento: se a forçarmos noutra língua, perde-se-lhe o contorno

O que fica depois é menos o que se comprou no fim da viagem do que aquilo para que se esteve a olhar pelo caminho. Portugal é daqueles destinos que ensinam isso.

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